"E por todo o lado, como uma doença que a todos ataca, começarão a nascer crianças com a pele da cor do mijo que expelis com agrado nas manhãs. Serão crianças da infâmia. E pela primeira vez na vossa vida vereis filhos rejeitando as mães que se atirarão às casas onde o corpo se venderá ao preço do pão, fornicando com as crias que desconhecem e apontando ao acaso os presurniveis pais da caterva de miúdos que nascem ás dezenas. As doenças nunca vistas tocar-vos-ão a todos, e não darão ouvidos ao curandeiro porque haverá casas onde espetarão ferros pelo corpo; e haverá homens com vestes de mulher que percorrerão campos e aldeias, obrigando-vos a confessar males cometidos e não cometidos, convencendo-vos de que os espíritos nada fazem, pois tudo o que existe na terra e nos céus está sob o comando do ser que ninguém conhece mas que acompanha os vossos passos e as vossas palavras e os vossos actos. A noite terá caído definitivamente nestas terras que mudarão de face com o vosso suor."
De Ualalapi de "Ungulani Ba Ka Khosa". O discurso completo está no site www.subcultura.org,

Em um pequeno auditório da Faculdade de Ciências e Letras Júlio de Mesquita Filho ouvi, pela primeira vez, as estórias e o canto de Paulina Chiziane. Digo, “pela primeira vez”, mas já agora, quando escrevo, me parece que já ouvira a voz da escritora moçambicana tecida naquela de sua personagem, a Rami, do romance Niketche: uma história de poligamia (2002). Era uma voz suave, quase um canto. Naquela ocasião, Paulina falou de sua arte, de seu país Moçambique, de homens e mulheres, de crianças, enfim, penso que ela falou da humanidade. E contou estórias. Ensinou ao pequeno grupo, formado, em sua maioria, por acadêmicos, estudantes e curiosos, a “abertura da estória”, a réplica que a platéia concede ao contador quando este dá início ao ritual da contação: “karingana ua karingana”! E respondemos: Karingana! E depois, vieram os gestos, a voz, a encenação de uma estória que só ela poderia contar-nos novamente (não ousaria aqui tentar reproduzir a cena). Momento inspirador e único.

