Em um pequeno auditório da Faculdade de Ciências e Letras Júlio de Mesquita Filho ouvi, pela primeira vez, as estórias e o canto de Paulina Chiziane. Digo, “pela primeira vez”, mas já agora, quando escrevo, me parece que já ouvira a voz da escritora moçambicana tecida naquela de sua personagem, a Rami, do romance Niketche: uma história de poligamia (2002). Era uma voz suave, quase um canto. Naquela ocasião, Paulina falou de sua arte, de seu país Moçambique, de homens e mulheres, de crianças, enfim, penso que ela falou da humanidade. E contou estórias. Ensinou ao pequeno grupo, formado, em sua maioria, por acadêmicos, estudantes e curiosos, a “abertura da estória”, a réplica que a platéia concede ao contador quando este dá início ao ritual da contação: “karingana ua karingana”! E respondemos: Karingana! E depois, vieram os gestos, a voz, a encenação de uma estória que só ela poderia contar-nos novamente (não ousaria aqui tentar reproduzir a cena). Momento inspirador e único.
Um convite à reflexão: em entrevistas concedidas ao jornal Notícias e à Revista Macau, a escritora moçambicana conta-nos sobre a sua arte, as relações tecidas pela escrita em seu país, a sua visão sobre o universo feminino e o masculino, sobre a língua portuguesa à moçambicana.
“Dizem que sou escritora e que fui a primeira mulher moçambicana a escrever um romance. Eu apenas conto estórias”.
“Sinceramente, enquanto mulher, às vezes emociono-me com a nossa condição de vida e vou rabiscando algumas linhas que acabam por ser um livro” .
“Não penso que possamos dizer que temos uma literatura moçambicana, ou seja que se identifique como tal. Nós estamos todos os dias à procura de estéticas de isto ou daquilo para escrevermos ou para abordarmos a literatura. Os nossos modelos de aprendizagem ainda são os europeus. Até que ponto nos esforçamos por fazer reviver a estética tradicional moçambicana?”
“Esta não é uma crítica que faço aos outros, pois eu também sou alvo dela. Reparemos numa coisa: a música é diferente da escrita, porque o músico, pelo menos, canta na sua língua, para você poder ser bom na literatura, salvo algumas e raras exceções, tem que escrever em modelos de A, ou de b, ou de C. Ora, bolas, que eu saiba, na nossa estética tradicional, quando se vai contar um grande conto, primeiro começa-se pelos ditados ou provérbios, etc. Essa é a estética da minha terra. Eu sou muitas vezes criticada e os meus críticos dizem e escrevem que ‘a Paulina escreve coisas que não têm forma’. E eu pergunto, forma de quê? Já foi muito bom eu aprender a ler e a escrever uma língua que não é originariamente nossa”.
“Porque os nossos escritos não nos identificam suficientemente como moçambicanos, fora as histórias que contamos”.
“Escrevemos na língua do outro, na estética do outro e ainda não investimos na busca da nossa própria estética. Atenção, eu própria estou inclusa nesta crítica”.
“Não tenho muitas boas palavras para explicar bem o que quero dizer, mas posso dar o exemplo de uma viola: é um instrumento europeu, ao alcance de qualquer indivíduo no mundo. O chinês compra-a e faz acordes chineses, portanto que o identificam. O moçambicano compra-a e faz acordes ou chopes, da marrabenta ou de todas as outras coisas que nós somos na música. O árabe idem, dedilhando o seu som”.
“Neste momento a nossa viola é a língua portuguesa. O que é que nós fazemos com a língua portuguesa em Moçambique? Eu escrevo na língua portuguesa e ainda me pedem para usar a estética da escrita da língua portuguesa. Por amor de Deus!”
“Descrever o mundo não significa absolutamente nada, não significa que seja machista ou feminista. Escrevo porque acho que devo. Só isso”.
No Brasil, o romance Niketche: uma história de poligamia encontra-se publicado pela editora Companhia das Letras. Em Portugal, a editora Caminho publica as obras da escritora.
E para “fechar” a nossa história, convoco a voz de Rami, a meu ver, uma das mais instigantes mulheres criadas entre a voz e a letra de Paulina Chiziane, no “entre” dos universos culturais de Moçambique.
“Meu Deus, ajuda-me a descobrir a alma e a força do meu rio. Para fazer as águas correr, os moinhos girar, a natureza vibrar. Para trazer ao meu leito a luz de todas as estrelas do firmamento e deixar o arco-íris mergulhar-me em toda a sua imensidão.
Sou um rio. Os rios contornam todos os obstáculos. Quero libertar a raiva de todos os anos de silêncio. Quero explodir com o vento e trazer de volta o fogo para o meu leito, hoje quero existir.”
Por Luana A. Costa
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